
BST (Batalhão de Serviços e Transportes), apelidado pela malta de Batalhão da Santa Tropa e ainda Batalhão de Surf e Turismo, onde cumpri o meu serviço militar entre Outubro de 1996 e Abril de 1997.
Quando fui chamado para o recrutamento, em Faro, fiquei de imediato a saber qual seria a minha especialidade, dado a pergunta que me foi feita e a reacção do indivíduo.
A primeira pergunta foi: “Tem carta de condução?”, quando respondi que sim, o individuo rio-se e comentou com o colega do lado: “Mais Um!” Fiquei apavorado! Este gajo não me grama e vai mandar-me para uma tropa macaca bem dura!
Após adiamento de um ano, para concluir os estudos (que não aconteceu) lá estava o meu nome nos Editais da Câmara Municipal de Castro Marim. Estremeci ao ver o nome exposto. Tinha alguma esperança de ficar na reserva.
No Edital pedia para comparecer, salvo erro, dia 06 de Outubro no BST, na Av. Alfredo Bem Saúde, Sacavém/Lisboa.
Lá fui eu, nunca mentalizado que ficaria lá.
À porta do quartel, um RV recepcionava o pessoal, «Tudo em bicha pirilau!», gritava ele! Era bicha pirilau para tudo.
Quando cheguei à fase das medidas e levantamento de fardamentos, comecei a mentalizar-me que não tinha hipótese, estava lixado, já não sairia dali!
No segundo dia confirmei as minhas expectativas, iria para a especialidade de condutor de pesados.
Inicio da Recruta
De manhã, bem cedo, instrução com dois furriéis e um alferes, para aprendermos a marchar, apresentar arma, etc., formação para a carta de pesados. Na parte da tarde era sempre uma incógnita, ou corríamos feitos loucos à volta do quartel, ou rastejávamos na lama feitos porcos. Pior era quando íamos para a pista de obstáculos. Quem não se lembra do “quebra canelas”, ou da “vala dos 3 metros”, ou do “pórtico” (o meu maior pesadelo), este último, quando nos foi apresentado e explicaram qual o seu objectivo, ia-me mijando todo só de imaginar.
Todo este “terrorismo” duraria 3 meses (recruta).
Tive a sorte de ter uma camaradagem de 1ª, no 2º pelotão da 1ª companhia e nos instrutores, furriéis, pouco mais velhos que nós, que nos encobriam nas patuscadas na caserna e nas fugas nocturnas, nos seus carros particulares.
Castigos I (supostamente)
Certo dia, um camarada fazia anos e presenteamo-lo durante todo o dia “a encher” (flexões). Depois, na parte da tarde, falamos com o furriel para nos levar para fora do quartel, no seu carro, para irmos beber um copo à sua saude.
Quando se está na recruta, não se pode sair do quartel, sem autorização do Oficial Dia e nunca desfardados.
O furriel alinhou! Levou a malta para fora, escondida no seu carro.
Atenção, eu no dia seguinte estava de serviço à cozinha, tinha de sair com um carro, ás 06:00 horas da manhã, para ir buscar o pão a Chelas.
Aconteceu que, à vinda da noitada, a malta toda animada, com confiança, não nos escondemos no carro para entrar, longe de pensarmos estar o Oficial Dia na porta de armas. Quando o soldado de serviço nos abriu o portão, rapidamente apareceu o dito. Olhou-nos um por um, com um olhar ameaçador, como quem diz “amanhã pagam-nas!”
Como referi anteriormente, eu tinha de sair às 06:00 horas, buscar o pão.
Estou tramado, não há hipótese! Ele acabou de me ver entrar e agora tenho de ir ter com ele para assinar o boletim de viaturas, para sair. Tem de ser!
Quando me viu, só disse: “Você?”, com um sorriso irónico. Jamais vou esquecer aquele olhar!
Assinou o boletim de saída e lá fui.
Toda a viagem fui pensando o que me iria acontecer. No mínimo um fim-de-semana de castigo.
Às 10:00 horas da manhã fui chamado ao edifício de comandos, pelo meu superior responsável, sargento-ajudante. Indivíduo porreiro, dado a espera da sua reforma.
«Meu ajudante dá licença?»…..Depois de um longo discurso a repreender pelo sucedido, mais nada se passou. Um porreirinho!
Depois desta situação, o ajudante Saraiva, em vez de ter começado a ser mais rude com a malta, não.
Cinco estrelas! Quando o levava em serviço de logística, passávamos pelo mercado dos Olivais Sul, e comprava sempre para a malta, bolas de queijo flamengo ou pacotes de “madalenas”. Um Bacano!
Castigos IIJá em “SEN” (recruta cumprida), a realizar o 1º serviço de fim-de-semana (creio que foi o único que fiz), foi-me dito por um camarada que ao fim de semana não havia serviços, para ficar descansado.
Acordei por volta das 10:00 horas, tomei um duche, vesti o fato de treino, fui tomar café e depois para a sala de cinema, onde pretendia passar todo o dia.
Por volta das 12:30 horas batem à porta da sala de cinema. Era a camarada Pinto que estava de serviço na porta de armas. Com cara de pânico diz-me: «Ferreira tás f…! O Oficial Dia anda à tua procura há muito tempo! Espera por ti na porta do refeitório.
Eu, sem perder tempo a mudar de fardamento, apressei-me a ir ter com ele.
«Meu tenente dá licença?», Ele: «Você é que é o Ferreira?» Eu: «Sou sim meu tenente!» Ele: «O que é que você faz de fato de treino c……?» Eu: « (expliquei a situação)», Ele: «Você é de onde c……?», Eu: «Do Algarve!», Ele: «então não conhece Lisboa?», Eu: « Não muito meu tenente.», Ele: «Ainda bem c……, você vai levar a Dª Rosa(cozinheira) a Carnaxide! Para lá ela indica-lhe o caminho, para cá desenmerde-se, tem todo o dia! Agora desapareça-me da frente c……!».
Lá vou eu com a Dª Rosa, que era uma simpatia, para Carnaxide.
Tentei decorar o caminho para voltar mas……cheguei mesmo muito tarde.
Castigos IIINa altura da “Operação Orion”, relacionado com a Bosnia, fizemos uma figuração de combate na Serra de Mafra, em conjunto com todo o batalhão.
Equipados com o M64 completo, lá fomos nós.
À chegada, fomos instruídos para a operação, que consistia basicamente na defesa de uma determinada área.
Eu e mais 3 camaradas, fomos colocados numa frente do terreno, cada um em sua trincheira.
Esta situação duraria o dia inteiro e como a malta já sabia, dentro dos nossos M64 vinha todo o tipo de iguarias. Chouriço, Queijo, Conservas, Pão, Vinho MM, etc.
Não nos aparecia ninguém na zona. Que pensamos? Juntámo-nos numa só trincheira e fizemos uma petiscada, um festim. Espectáculo! Belo Dia!
No meio de grandes rizadas e cigarradas, ouvimos uma voz imponente que nos fez tremer. Era o Capitão. Agora nada a fazer, estávamos sujeitos, fomos apanhados!
Levamos uma bronca daquelas…!
Soubemos mais tarde que deram connosco porque o suposto inimigo, invadiu a área e chegou ao objectivo sem ninguém o ver. Ops…!
Castigo IV (O susto)
Quase a terminar o serviço militar, sou solicitado pelo 2º sargento para um serviço de recolha de mobiliário, em Sintra, para uma instituição de caridade.
Nesta altura, a Av. Alfredo Bem Saúde encontrava-se em obras. A construção de mais uma faixa de rodagem.
A viatura para executar o serviço foi um camião (DAF ya 4440 D4*4 de 5 Toneladas).
Quando ia sair do quartel, o porta de armas manda parar o trânsito para a viatura militar entrar na via.
Arranco! Quando chego a meio da faixa de rodagem deparo-me com separadores no meio da via que me impossibilitavam de voltar á esquerda, obrigando-me a fazer marcha a trás.
Antes de iniciar a marcha a trás, olhei para os retrovisores, não vendo qualquer obstáculo, arrancando com segurança. Repentinamente a meio da marcha, sinto um forte impacto, ficando com a traseira da viatura no ar. Apressadamente, saio da viatura e vou ver.
Meu Deus! Estou f…! Agora é que casei com a tropa!
Debaixo do camião estava um Seat Ibiza, novo, com apenas três meses. Dentro da viatura, estava um capitão do exército à civil, com o eixo traseiro do camião a roçar-lhe o nariz. O homem estava branco e verdadeiramente assustado.
Estando o capitão com uma viatura civil, aproveitou a saída da viatura militar, seguindo-o colado, para entrar na Avenida.
Depois de muitas investigações por parte da PE, ninguém soube dizer-me o que se iria passar.
Quanto a mim, eu não era culpado, dado a viatura militar ser muito larga, não conseguindo visionar a viatura ligeira.
Depois de completar o serviço militar, já em casa, fui chamado ao quartel para prestar declarações sobre o acidente. Pensei: Vou para a casa da “Rarta”(cadeia militar).
Prestei apenas declarações e voltei para casa, Ufa!
Só muito mais tarde, recebi uma carta do quartel a informar que estava INOCENTE!
Safei-me de mais uma.Acreditem que, o meu serviço militar de seis meses pareceram-me anos.